O coração da criança está em obra. Ele começa a bater com cerca de três semanas de gestação e não para mais, e vai mudando de tamanho, de ritmo e de anatomia ao longo do crescimento. Por isso a leitura de um exame na criança não é a mesma do adulto: o que seria alteração em um coração adulto pode ser o funcionamento esperado de um coração que ainda amadurece.
Dois exemplos ajudam a entender. O ritmo do coração da criança varia com a respiração, acelera quando ela puxa o ar e desacelera quando solta, e isso, em geral, é normal, não uma arritmia. E muitas crianças nascem com pequenas comunicações, aberturas entre as câmaras do coração, que se fecham sozinhas nos primeiros anos. Quando aparecem no laudo, essas comunicações vêm em siglas que assustam mais do que explicam: CIV é a comunicação entre os ventrículos, as câmaras de baixo, e CIA a comunicação entre os átrios, as de cima.
Existem mais de trinta tipos de cardiopatia congênita, e a maioria não tem o desfecho grave que o nome sugere. Estima-se que cerca de 1 em cada 100 bebês nasce com uma cardiopatia congênita, segundo informações divulgadas pela Sociedade Brasileira de Pediatria e pela Sociedade Brasileira de Cardiologia.
Traduzir essas siglas antes de qualquer decisão é parte do trabalho. Na consulta, a Dra. Bruna Carapeba desenha o coração na frente da família, mostra onde está a alteração e entrega o desenho para levar, para que ninguém saia com um nome no papel e um medo sem explicação.